quinta-feira, 13 de maio de 2010

DeSpErTaR

As notícias e o mundo passeiam com velocidade. Eu me sinto fora de contexto. Aprendo de novo, todas as coisas que eu achei que já estarem estabelecias. O quarto tem um aroma nostálgico.
A-na-crô-ni-co; i-ne-fá-vel. O que realmente essas palavras sigficam? Tédio...
Ouço sons transitando pelo corredor, eles não fazem sentido, ignoro-os. Observo o lugar a minha volta, ele também não faz sentido, ignoro-o. Agora o tempo se arrasta, durante a visita do silêncio. Não creio estar em condições de interagir. Não creio estar em condição alguma; sinto apenas dor. Meus músculos doem.
Ficar na cama me cansa; ficar vivendo me cansa; sentir dor me cansa; estou cansado!
Repasso novamente os olhos pelo ambiente, nada ocorreu. Meu olhar é atraído à janela. Noite; que horas serão?
Acabo de lembrar de meu nome, J.Veiga Silva. Sim, ilustríssimo J.Veiga Silva, filho de Raul T. Veiga, sargento condecorado do exército e Lurdes Maria Silva, professora de álgebra da escola... Qual era mesmo o nome? Bem, não importa, estam aposentados de suas funções. Faz tempo que não os vejo, a quanto tempo será que lhes fiz a última visita? Bastante, creio. Parece uma eteridade. Recordo-me da alegria deles quando me casei... Sou casado...
Tenho mulher e filha.
Subitamente sou tomado por uma sensação ruim. Será que algo ocorreu com elas?! Luto para me levantar. Não consigo, respirar somente, pesa-me bastante. Tomo fôlego e novamente tento. Dessa vez, mais desajeitado, mais incontrolável, mais furioso, a dor vem, ignoro-a e continuo a teimar com minhas condições por alguns instantes; derrota...
Inútil, imprestável, repito milhões de vezes essas palavras, na tentativa de fazer com que meu corpo me obedeça, ele continua a teimar, obtenho apenas pequenos espasmos. Estou cansado.
Ao poucos vou me acalmando da angústia, de minha incapacidade. Minha cabeça começa a doer, solto gemidos sem perceber, a dor se intensifica e os gritos tomam todo o ambiente, vejo vultos a minha volta, minha cabeça esta latente, meus sentidos se esvaem com a dor.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

(...) Eu entrei.
Quando fecho a porta, vejo que não estou no meu porão, mas em um lugar totalmente novo. Um lugar escuro, frio, com uma atmosfera muito mais densa e suja da qual eu havia me acostumado. À minha frente, existia uma trilha que se estendia por alguns quilômetros, não enxergando o seu final. Atrás, uma enorme parede com a porta que eu entrara,  e ao meu redor, um conjunto de árvores mortas, semi cobertas por arbustos altos espinhosos, com flores vermelhas nas pontas.
Eu não sabia porque estava naquele lugar, mas era óbvio para onde eu deveria ir.
Fui caminhando lentamente, aos poucos, ele se tornava mais estreito e, em alguns momentos, pequenos tecidos da minha roupa ficavam presos aos espinhos do arbusto, o que me fez ir com mais cautela.
Após 10 minutos, o caminho voltava ao normal e deixava de ser estreito. Os arbustos foram desaparecendo e dando lugar a um muro de pedras cinzas e largas, com aparentemente 5 metros de altura.
Conforme os meus passos iam ficando pra trás, a atmosfera ia ficando mais leve, mais fácil de respirar. Me sentia calmo, bem, nenhum problema poderia se agarrar as minhas pernas, me puxar e arrastar para as complexas entranhas fraternais da tristeza.
O bem estar era tão imenso, que não notei quando cheguei ao fim da trilha.
A frente de um portão de grades sujas e imensas, estava uma figura, aparentando 1,60, capuz ao rosto, corpo coberto pelo manto de cor cinza esverdeado, e pés descalços. Não conseguia enxergar aonde estavam ou deveriam ficar suas mãos.
- Senhor? Você poderia me informar aonde eu estou?
Lentamente o ser deu um passo para frente. Consegui ouvir perfeitamente o barulho de correntes, uma se chocando contra a outra.
A cada passo, os barulhos das correntes ficavam mais fortes, quase ao ponto de se tornarem insuportáveis. Foi quando o homem olhou para mim.
Seus olhos me encaravam, e eu não conseguia parar de olha-los. Conseguia enxergar todas as memórias, e segundo a segundo da vida daquele ser. Ele havia sofrido. Sofrido muito.
Cada pegada em terra firme que o homem havia deixado estava coberta por larvas e besouros, como se eles fossem nutridos pelo espaço aberto da sustentação.
Suas mãos se estenderam, puxando o manto e mostrando um pouco a identidade do ser.
Não havia boca e nem nariz. A face era lisa e pálida, com sinais de cortes próximos aos olhos. Em suas mãos, em cada junção de seus dedos estava uma argola presa à carne, e das argolas se estendiam correntes que iam para buracos nas paredes.
A criatura parou. Eu estava aterrorizado. A cada segundo que a criatura olhava para mim, lembranças horríveis vinham a minha mente. Todo o ar de bem estar havia se transformado em lágrimas, desespero e tortura. Meu corpo estava tremendo, minhas pernas não respondiam ao meu controle, não conseguia sequer pensar em falar alguma coisa, a não ser berros escandalosos e gemidos de dores passadas. Cada expressão no rosto daquele ser lembravam minhas dores e sofrimentos, e sentia como se estivesse sendo obrigado a ver aquilo.
A criatura levemente estendeu a palma da mão para cima, detalhando a boca que havia sido costurada nela. Os lábios negros e sujos lentamente se abriram.
Eu nunca vou me esquecer desse dia.